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domingo, 11 de julho de 2010

CRÔNICAS DE ANGÉLICA LYRA.




UM TREM CHAMADO ALZHEIMER
                                             
                                           Angélica Lyra


A Cada dia mais distante de nós! É o que sempre respondo quando perguntam como está mamãe.
É que ela embarcou num trem conduzido pela Doença de Alzheimer. Este trem que, até chegar ao seu destino, sem nenhuma consulta ao passageiro, o condutor, vai aos poucos, arremessando pela janela aquilo que há de mais precioso no ser humano – a sua memória.
De início, durante alguns anos, quando tentávamos nos comunicar com ela, percebíamos que sua memória estava fragmentada, muito dela já havia sido jogada e, a cada dia que passava, pouca coisa restava. Quando conversava só lembrava-se do que acabara de dizer, repetindo várias vezes o mesmo fato e, ou, fazendo as mesmas perguntas.
Mas o pior estava por vir! Quando da visita dos filhos, olhava-os como a um estranho. Eu perguntava:
- Sabe quem é Mamãe?
E como se tivesse vergonha de dizer que não sabia quem era ela respondia com um sorriso:
- Não lembro o nome, mas sei que é uma pessoa minha.
Isso doía na alma. Quando se tratava de pessoas amigas, com muita satisfação, sempre com um sorriso nos lábios ela dizia, sem nunca lembrar o nome:
- É gente minha, da turma da velha guarda!
Hoje não identifica ninguém – seja da família ou amigo. Hoje quase não sorri!
Otempo passa, e o trem segue viagem, Das paisagens que ainda consegue visualizar durante o percurso nada fica registrado ou fotografado por sua memória.
Não satisfeito com tudo que arremessa pela janela, e em parceria com a artrose começa a inutilizar suas mãos que já não acenam, gesticulam ou se estendem para abençoar. As mãos que antes desta viagem afagavam com carinho, com desvelo a si e aos seus, hoje se encontram sem movimentos; dos dedos antes flexíveis, hoje só há fracos movimentos em uma das mãos.
E dessas mãos, dos braços e pernas que nas atividades do cotidiano permitiam-na cumprir suas tarefas de esposa, de mãe, de dona de casa, apenas em nossa memória permanece. A estrutura física, antes forte e robusta, hoje é frágil, sem a musculatura antes responsável por seus movimentos. Nesse trem, para descansar o seu corpo nessa enfadonha viagem, ela só pode usar uma cadeira de rodas ou uma cama onde passa a maior parte do tempo.
Uma mulher forte e bonita; um “tipão” de mulher que conseguiu encantar o único amor de sua vida e fazer-se amada por ele; reconhecidamente uma mulher que apesar de todo o sofrimento a que foi submetida em algumas fases de sua vida, com amor, dedicou-se exclusivamente ao esposo enquanto vivo, aos filhos, ao seu lar, aos familiares, aos amigos, a Deus, a amar o próximo, hoje, numa contagem regressiva, busca o útero materno, esperando (sabemos que está próximo), o seu nascimento para outra vida. Ao invés de um adulto de noventa anos, para nós, diante de seu estado, é bem mais fácil vê-la hoje como a um bebê com pouco mais de nove meses, com todas as necessidades inerentes a uma criança. È assim que a vemos, é assim que a tratamos: como a uma criança.
Maldito trem, esse conduzido pela Doença de Alzheimer! Além da memória, tira-lhe também o controle do sono – às vezes dorme demais, às vezes de menos ou não dorme; tira-lhe, o convívio consciente com os entes queridos; seus movimentos; seu entendimento; sua paciência... Mas, nunca conseguiu tirar-lhe o amor, a ternura, o carinho pelos filhos, netos, bisnetos (quando se identificam); a sua fé em Deus e muito menos abalar a sua sensibilidade musical. A música, que em seus momentos de dor, de angustia, de saudade, consegue aliviar o seu sofrimento, suavizar o seu semblante, iluminar a sua alma e transportá-la para onde ou para quem a saudade naquele momento determina. É um momento em que ela consegue ficar insensível a todos os sintomas impostos pela doença. Ouvindo uma voz que canta, ou uma música que toca, ela relaxa o seu corpo, renova o seu espírito, aquieta a sua agitação, e, ao conciliar o sono, pela sobriedade de sua fisionomia, viaja ao encontro de seus sonhos, onde com certeza, estão a sua casa, seus pertences, seus familiares e amigos, já que quando acordada, a Doença de Alzheimer, impede-a de reconhecê-los como tal.

São José da Laje, junho de 2008

Um comentário:

  1. Angélica é filha de D.Josefa Vieira Lyra.Eu também sou! Numa singela homenagem à " passageira", narra com propriedade e altivez a degeneração da Alzeimer, e as dores e perdas no decorrer desse estágio porque passa nossa mãe,num ato de amor descreve a ação nefasta nos seus portadores.Sem dúvida uma atitude nobre que registra a dor do pesonagem principal e seus filhos!
    abração ,
    Dydha Lyra.

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